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Mito e filosofia: Continuidade ou ruptura?

Pela interpretação tradicional da História da Filosofia, somos persuadidos a crer que a Filosofia emerge entre os Gregos por uma ruptura com o Mito. Não havendo, por assim dizer, uma continuidade dessa forma de se entender a realidade com o afloramento de uma nova atitude frente à realidade puramente racional inaugurada pelos Gregos. Entretanto, existem inúmeras controvérsias quanto a essa interpretação, o que nos leva a crer, por vários motivos, que há evidencias que nos levariam a aceitar uma continuidade significativa do discurso Mítico no interior da Filosofia nascente, e abandonar a difundida tese do “Milagre Grego”.

(O “Milagre grego” em nada se aproxima do Mito, são visões totalmente divergentes da realidade, de modo que o acontecimento da filosofia deixa transparecer o testemunho de uma mutação no pensamento.)…

Para ler o resto do texto Delmo Mattos da Silva … acesse …


Tese: Continuidade do Mito à Razão

O pensamento racional tem um registro civil: conhece-se a sua data e o seu lugar de nascimento. Foi no século VI antes da nossa era, nas cidades gregas da Ásia Menor, que surgiu uma forma de reflexão nova, inteiramente positiva, sobre a natureza. Burnet exprime a opinião corrente quando observa a este propósito: “Os filósofos jônios abriram o caminho que a ciência não fez depois senão seguir”. O nascimento da filosofia, na Grécia, marca assim o começo do pensamento científico, – poder-se-ia dizer simplesmente: do pensamento. Na Escola de Mileto, o logos ter-se-ia pela primeira vez libertado do mito como as escaras caem dos olhos do cego. Mais do que uma mudança de atitude intelectual, do que uma mutação mental, tratar-se-ia de uma revelação decisiva e definitiva: a descoberta do espírito. Seria por isso vão procurar no passado as origens do pensamento racional. O pensamento verdadeiro não poderia ter outra origem senão ele próprio. É exterior à história, que só pode, no desenvolvimento do espírito, dar a razão de obstáculos, de erros e de ilusões sucessivas. Tal é o sentido do “milagre” grego: através da filosofia dos jônios, reconhece-se a Razão intemporal encarnada no tempo. O aparecimento do logos introduziria portanto na história uma descontinuidade radical. Viajante sem bagagem, a filosofia viria ao mundo sem passado, sem pais, sem família; seria um começo absoluto.
Nesta perspectiva, o homem grego acha-se assim elevado acima de todos os outros povos, predestinado; nele se encarnou o logos. “Se inventou a filosofia, opinava ainda Burnet, deve-o às suas qualidades de inteligência excepcionais: o espírito de observação aliado ao poder do raciocínio”. E, para além da filosofia grega, esta superioridade quase providencial transmite-se a todo o pensamento ocidental, surto do helenismo…

Para ler o resto do texto de Jean-Pierre Vernant … acesse …
Fonte: Do Mito à Razão. A formação do pensamento positivo na Grécia Arcaica (Mito e Pensamento entre os Gregos. Estudos de Psicologia histórica. Tradução de Haiganuch Sarian, São Paulo, Difel, 1973, p. 293-319)

Sobre Vernant

O professor Jean-Pierre Vernant faleceu em 9 de janeiro de 2007, aos 93 anos.

Vernant foi responsável por uma modificação significativa em nossa compreensão das origens do pensamento grego, substituindo o mito do “milagre grego” pela análise concreta das condições históricas que deram nascimento à filosofia. Nascimento associado ao da Cidade grega, em particular da democracia, este regime em que, diz ele, o poder está “no centro”, eqüidistante de todos, de modo que, ao contrário de qualquer outra formação histórica, torna necessário o recurso à razão para fazer valer uma determinada posição. Do mesmo modo que a Cidade grega já não se subordina à autoridade do déspota, que dá ordens, sem necessidade de argumentar, o filósofo não se contenta com a autoridade tradicional e divina do mito. A compreensão das modificações históricas que propiciaram o surgimento da Cidade, por sua vez, exige a análise da especificidade grega, da radical novidade do regime de escravidão até, no limite, a consideração do tipo particular de produção de ferro. Um programa assumidamente “materialista”, chamado por Vernant de “psicologia histórica”, que soube se manter ao largo da vulgaridade e que se estende pela longa produção de dezenas de livros, muitas vezes regida pela análise do mito: “Mito e Pensamento”, “Mito e Trabalho”, “Mito e Sociedade”, “Mito e Tragédia” etc. Ou melhor, Entre mito e política, como no título de sua “auto-biografia” (publicada em 1996 e traduzida pela Edusp em 2001), na realidade, um extraordinário “memorial” de sua vida acadêmica e política.

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Algumas entrevistas com Jean-Pierre Vernant

Entrevista com Jean-Pierre Vernant, O Estado de São Paulo – Caderno 2 – 05/08/2001

O francês Jean-Pierre Vernant é considerado o maior helenista vivo. Nome familiar aos estudantes de filosofia, o autor francês tem vários livros publicados em português, entre eles Universo, os Deuses, os Homens (Cia. das Letras), As Origens do Pensamento Grego (Bertrand Brasil), A Morte nos Olhos (Zahar), Mito e Sociedade na Grécia Antiga (José Olympio), Mito e Tragédia na Grécia Antiga (Perspectiva). Sai agora no Brasil outro volume fundamental, Entre Mito & Política, antologia de textos, uma espécie de “suma” de toda uma vida de pesquisador.

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Entrevista concedida à Folha de São Paulo Online – Caderno MAIS! – 31/10/1999 – Páginas: 4 e 5.

Com a democracia, a Grécia inventou também a tragédia e a filosofia, tornando-se, nas palavras do historiador Jean-Pierre Vernant, o “mundo de onde viemos”. Tudo mudou desde então, o espaço, o tempo, a autoconsciência, a memória, as formas de raciocínio. Mas é o homem grego que está nessa espetacular origem.

Pergunta – É possível falar de um milagre grego, dizer que na Atenas clássica do século 5º ou 4º a.C. todo o Ocidente foi inventado. O senhor concorda com essa idéia?

Jean-Pierre Vernant – Acredito, de fato, que os gregos em grande parte nos inventaram. Sobretudo ao definir um tipo de vida coletiva, um tipo de atitude religiosa e também uma forma de pensamento, de inteligência, de técnicas intelectuais, de que lhes somos em grande parte devedores.

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Bibliografia Principal

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VERNANT, Jean-Pierre. Do mito à razão. In: Mito e pensamento entre os gregos: estudos de psicologia histórica. Trad. Haiganuch Sarian. Rio de Janeiro: Paz e Terra, edição revista e ampliada, 1990. Download

Bibliografia Complementar

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega I. Petrópolis: vozes, 1987. Download

_____________________. Mitologia Grega II. Petrópolis: vozes, 1987. Download

_____________________. Mitologia Grega III. Petrópolis: vozes, 1987. Download

VIDAL-NAQUET, P. O Mundo de Homero. Trad. J. Batista Neto. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

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Sites
Coleções Nerds – Acesse
Cafés Filosóficos – Acesse
Livros de Humanas – Acesse
Programa Logofonia (A Teogonia de Hesíodo) – Acesse
Grécia Antiga – Acesse

Sobre Sanabria

No registro consta José Roberto, mas vulgarmente conhecido por Sanabria, muito prazer. Sou professor de Filosofia, Músico e Publicitário. Continua no próximo episódio... San

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