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Nevermind: uma interjeição negativa

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[Never mind Never]

Spencer Elden com 17 anosO ano era 1994 e o cenário sócio-histórico totalmente incompreensível (pelo menos para mim); o Brasil vivia a euforia do tetracampeonato e a desconfiança do Plano Real. O neoliberalismo tupiniquim se manifestava na política macroeconômica que engendrava uma percepção anacrônica de bem-estar social, contudo o anêmico crescimento interno, as privatizações e o alto nível de desemprego evidenciavam a submissão promíscua do governo Itamar Franco (e de seu Ministro da Fazenda –  Fernando Henrique Cardoso), aos países do G-7 e ao FMI.

Enquanto o mundo construía uma ordem discursiva hegemônica sob a égide da desigualdade, Eu embarcava em uma adolescência iconoclasta e niilista; lembro que naquele ano dois fatos marcaram e modificaram totalmente minha percepção de estar no mundo.

A primeira ocorreu quando meu pai recebeu sua primeira nota de 50,00 reais, era uma tarde fria de julho e ele me perguntou se aquela onça devoraria seus sonhos, na hora dei risada daquele metalúrgico petista, mas hoje entendo completamente sua angústia. Pouco tempo depois o segundo fato se concretizaria em uma fita k7 de uma banda chamada Nirvana. Não fazia idéia do que aqueles caras falavam, não sabia o nome das músicas, do album, não sabia nada. Mas quando coloquei a fita (Nevermind) no walkman… alguma coisa aconteceu, a primeira faixa do “Lado A” era…

  1. “Smells Like Teen Spirit”.

Nossa que som era aquele. O primeiro riff não era sujo nem limpo, era simples (com uma guitarra desafinada dava pra tocar facilmente e a música não perdia sua essência); o retorno do riff apresentava toda agressividade de Dave Grohl e a sinceridade de Kirst Novoselic. A harmonia da bateria e do baixo sustentava o vocal depressivo de Kurt Cobain que logo se transfigurava em “gritos desesperados” no refrão. Era genial, um produto de uma indústria cultural com resquício niilista niezsheanos.

Não havia virtuosismo, as velozes, chatas e enjoativas notas por segundo em escalas de terças e sextas das bandas dos anos 80 não influenciaram o Nirvana, o lema era:  “I’m worse at what I do Best…And for this gift I feel blessed”.  Assim  inseriam novamente no cenário musical os velhos três acordes do Punk Rock reconfigurados pelos amplificadores e pedais do New Wave.

Como disse, o ano era 1994, e o álbum Nevermind (1991) há 3 anos já estava no mecado e há 3 meses Kurt havia se matado. A vontade de encontrar informação sobre aquele som era enorme, porém a estrutura comunicacional era unidirecional. A internet embrionária e elitista no Brasil sustentada por PCs 386 com disquetes 1.44 Mb, não colaboravam nas pesquisas, sem contar que o Google da época era o Cadê, e Youtube era um sonho longínquo de hackers e geeks. Logo, a compreensão e a aquisição de informação sobre essa obra prima da música contemporânea se estendeu por toda minha adolescência e juventude tardia de forma paulatina.

Notas filosóficas

Seria um desfavor  elaborar uma análise estruturalista sobre as premissas filosóficas que compõem o Nevermind. Sendo assim, essas notas são especulativas e obscuras sem intenção alguma de classificar ou didatizar o processo de criação do Nirvana. São percepções micro-físicas de contextos literários, filosóficos e sociais que coexistiram simbioticamente na última década do século XX.

Há exatos 20 anos (24 de setembro de 1991) o Nirvana lançava o álbum Nevermind em diversas lojas de discos norte americanas, o carregamento inicial foi 46, 251 cópias em solo estadunidense e de 35, 000 cópias no Reino Unido.

O primeiro contato físico (K7, disco ou cd) provocava um espanto ensurdecedor, isso porque a emblemática capa deixa um “Q” de dúvida no ar.

A emblemática capa do segundo CD do Nirvana.

 A primeira coisa que pensei quando vi aquela imagem foi – “que capa loka”… 17 anos depois reforço _ “que capa loka”. A diferença da primeira expressão para a segunda, está simplesmente no fato de uma ser imediata e a outra mediada por hipóteses que coletei no decorrer do caminho.

Formulei a primeira hipótese no fato de Kurt Cobain e Dave Grohl terem se inspirado em um documentário sobre crianças que nasciam debaixo da água. Como as imagens eram muito fortes e desagradáveis contrataram o jovem fotógrafo Kirk Weddle para produzir algo do gênero. Sem muita grana Weddle pediu ajuda para um casal de amigos que acabara de ter um filho, Spencer Elden (o bebê de 4 meses). Kurt insatisfeito como sempre, acrescentou o anzol e a nota na edição final.

Apesar de todas as informações sobre a produção imagética serem aparente legitimas, muitas questões me incomodam ainda quando observo aquela capa, e sempre me pergunto. O que esse bebê está fazendo ai? Por que tenho a impressão que ele está nadando em direção a nota de 1 dolar? Quem está pescando, ou melhor, existem pescadores de humanos? Muitas questões vão surgindo e se materializando em diversas raízes mais confusas e profundas.

Tenho a sensação que aquele bebê ainda está no útero de sua mãe, contudo sua potência existencial foi completamente violada por um contexto sócio-histórico perverso. Por mais que a existência preceda a essência, limites  estabelecidos por elementos abstratos irão delimitar e direcionar a órbita humana no plano concreto. Não há saída desse sistema, a não ser que o niilismo, a autodestruição e a negação total do status quo sejam regras gerais da conduta humana.

O processo de desvalorização dos valores está presente no Nevermind, antes do primeiro acorde soar e depois que o silêncio se tornar um Estado Absoluto. A desconstrução é constante, dia-após-dia um novo universo se reconfigura mediados por indivíduos que poderiam  ser Beckett (o vocal da não-palavra), Ionesco (o baixista insólito) e Camus (o bateria e niilista Poiésis).

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Nevermind a Tribute Album

Nevermind

Especial MTV

Nevermind 20 anos

Revista SPIN

DownloadNirvana – Nevermind (Super Deluxe Edition – 4 Cds) – 2011

Bibliografia

DEBORD, G. A Sociedade do Espetáculo. Rio de Janeiro, Contraponto, 1997.

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Sobre Sanabria

No registro consta José Roberto, mas vulgarmente conhecido por Sanabria, muito prazer. Sou professor de Filosofia, Músico e Publicitário. Continua no próximo episódio... San

»

  1. po Zé..o texto acabou?…

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