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A ontologia do desabrigo

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Criar um refúgio creio ser uma das maiores habilidades dos seres humanos. Entendo por refúgio qualquer zona do conforto, onde há a sensação de controle de todas as situações, e aquilo que os outros chamariam de opinião temos a convicção de ser uma lei, um desejo do monarca.

A perseverante busca pelos refúgios é algo muito presente em nosso inconsciente instintivo. Os ancestrais, por exemplo, foram aumentando a longevidade na medida em que conseguiam encontrar melhores abrigos que os protegessem das intempéries naturais.

E assim fomos passando o tempo por aqui, evitando as cavernas em busca dos palácios, posto que as primeiras ainda são usadas em caso de necessidade extrema. Essa empreitada dá ao homem uma ilusória de proteção dos fenômenos da natureza física… dele residente no campo e começa a constituir as cidades

E num harmonioso interessante sincretismo ideológico, a história da filosofia ocidental foi desenvolvendo seus refúgios das adversidades civis. Os filósofos trilharam um árduo caminho para sistematizar logicamente suas idéias, olhando para o passado, com o intuito de ordenar o caos da realidade. Compreendo o caos como a ordem natural das coisas, pois no princípio o caos, não era? Esses refúgios dão aos homens uma outra ilusória proteção, só que agora uma defesa do homem dos ataques dele mesmo homem enquanto natureza… dele residente na cidade.

Não conseguindo ordenar uma lógica para o caos, olha como os filósofos criaram tênues abrigos: Platão refugia-se na contemplação (theorien) dos arquétipos ideais; Aristóteles, na busca do conhecimento da substância outrora ignorada; Agostinho, na cristianização de Platão; Tomás de Aquino, na cristianização da Aristóteles… e assim veio trilhando os filósofos conquistando seus semelhantes refúgios.

 Nessa discussão,Immanuel Kant foi despertado de seu sono dogmático, prefiro chamar em postulação da fragilidade dos refúgios dos gregos. Empenhou-se em conciliar os dois refúgios eternizados por Platão e Aristóteles. Há quem diga que foram criados, de fato, por  Parmênides e Heráclito. Nessa conciliação Kant criou o criticismo, ou seja, uma crítica que tenta situar o lado ideal de nosso pensamento e o lado concreto das nossas atividades. Unindo essas duas edificações o alemão pretende construir uma um tanto mais forte

Entretanto, Kant, talvez vendo alguns limites nessa complicada conformidade, foi motivado a escrever um texto para explicar o que é o esclarecimento. Séculos depois, Michel Foucault identifica nesse texto uma pioneira ambição filosófica em discutir o presente do autor que o escreveu. O francês chama essa preocupação kantiana de inicio de uma ontologia do presente. Nela, o filósofo fica exposto à realidade temporal de sua existência civil, com a responsabilidade de experienciar os apontamentos para novas vivências humanas.

Só para lembrar… Nietzsche com seu martelo foi o filósofo que deu a pancada final nos abrigos de Platão e Aristóteles, o que Kant tentou salvar em sua mal fadada bricolagem. essa mesma que o próprio Kant intuiu a inconsistência…

 Aqui estamos. Desprotegidos e com a consciência da fragilidade, mas com a responsabilidade de vanguarda. Em vez de cronistas, médicos que diagnosticam as pústulas civilizatórias e agindo para o presente. O fugaz e etéreo presente.

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Por Ulisses Mendes Coelho

Sobre Sanabria

No registro consta José Roberto, mas vulgarmente conhecido por Sanabria, muito prazer. Sou professor de Filosofia, Músico e Publicitário. Continua no próximo episódio... San

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