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A filosofia nasceu do medo de sermos Kurt Cobain

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O incômodo é o que nos sugere a busca das origens. As crianças adotadas formam um grande exemplo para melhor ilustrar esse argumento, pois vemos com muita freqüência os menores, quando descobrem não serem os filhos biológicos de seus pais, buscarem exaustivamente suas origens genéticas.

 Afinal, qual é o sentido real de se saber o instante da origem? Normalmente usamos o adjetivo original para designar algo marcado por sua autenticidade. Há quem diga que o finado Kurt Cobain era original por ter sido uma criatura autêntica, ou seja, paulatinamente foi sugado por suas angústias, para deleite de nossos ouvidos, distúrbios das paixões e orfandade da menina Frances.

 Ora, conhecer nossas origens nos faz estrangeiros e degredados em um suposto cárcere de nossos instintos selvagens de satisfações imediatas? E não é exatamente isso que nos faz procurarmos nossas origens em lugares equivocados, num esplêndido auto-engano que pretende unicamente a conservação da espécie?

 Por isso os filósofos insistem em procurar a origem da filosofia dentro do ambiente urbano. Jean-Pierre Vernant afirma que a filosofia é filha da cidade. Situa a gênese da filosofia na tensão entre a esfera pública com a privada, que foi propiciada pelas condições históricas e sociais das cidades-estados gregas. Será que esse embate que começou a se chamar de filosofia surge com primazia nas cidades? Não há a possibilidade de um embate ancestral?

 O raciocínio desenvolvido no filme “2001: Uma odisséia no espaço”, de Stanley Kubrick, vai auxiliar o interessante retrocesso para nós mesmos. Ali, o macaco passa a ser respeitado e desenvolve as suas faculdades humanas quando se impõe pela força, ou seja, quando um deles torna-se líder, um Napoleão Bonaparte das selvas, a partir do momento em que mata o outro e o medo da morte faz com que a macacada reconheça não uma liderança, mas uma ameaça. No passar dos milênios registrados no filme, a máquina também vai ser impor ao homem por sua capacidade de deliberar o assassinato dos tripulantes de uma nave espacial. O computador HAL 9000 começa a planejar a morte dos astronautas.

 Peço ao atento leitor que tente se colocar na primeira situação do filme, lá no momento em que uma comunidade de macacos reconhece seu líder pelo persuasivo medo da morte. Imagine no canto da cena um peludo filósofo-macaco (esse “peludo” irá render copiosas gargalhadas sanabrianas, em detrimento do peludo que vos fala). O que estaria pensando o primata?

 “Que Hobbes me entenda sem direitismo, mas vou reunir todos os fracos e propor ao líder que é interessante negociar conosco, pois uma hora ele vai dormir e qualquer semelhante, por mais frágil que seja, pode degolá-lo. Chamarei esse acordo de moral, que Nietzsche me entenda sem escalações em montanhas, pois é a moral do mais forte por não haver força capaz de suprimir a maioria o tempo todo”.

 Pensado isso, foi criada a primeira filosofia e a primeira sociedade. Diante de um impasse concreto, foi criado um pensamento, que, nesse caso específico, agiu para a transformação dessa realidade.  A filosofia antecedeu a sociedade moral.

 Por esse lado, afirmo com bastante segurança, que a filosofia é filha do medo. Quando os filósofos contemporâneos querem buscar as origens da filosofia, partindo de incômodos atuais e retrocedendo até numa origem de uma filosofia específica já numa sociedade configurada, demonstram a dificuldade de lidarem com seus próprios instintos naturais. Um medo de dizer que são medrosos… Um medo da ameaça sempre presente do tirano… Um medo de ser Kurt Cobain!

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por Ulisses Coelho

Sobre Sanabria

No registro consta José Roberto, mas vulgarmente conhecido por Sanabria, muito prazer. Sou professor de Filosofia, Músico e Publicitário. Continua no próximo episódio... San

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