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Dialética do Esclarecimento

Publicado em

Instituto de Pesquisa Social – Escola de Frankfurt

A Dialética do Esclarecimento de Adorno e Horkheimer: 67 anos de crítica radical do esclarecimento

Em maio de 1944, há 67 anos, Theodor W. Adorno e Max Horkheimer, exilados com o Instituto de Pesquisas Sociais de Frankfurt na Califórnia, terminavam a redação da obra Dialética do Esclarecimento – fragmentos filosóficos, publicada apenas três anos depois. Pela primeira vez na história da crítica social, todo o potencial teórico-crítico fornecido pela crítica da economia política de Marx – construída simultaneamente sobre a exposição e crítica das categorias da economia burguesa, isto é, das “formas de pensamento socialmente válidas e, portanto, objetivas para as condições desse modo social de produção” (O Capital, capítulo primeiro) – era levado aos seus extremos, a ponto de questionar a própria forma da consciência que sustentava a crítica. Assim, tanto as categorias gerais da “consciência filosófica” como o pensamento conceitual como um todo, seja ele lógico-formal ou dialético, foram alvos de uma crítica corrosiva.

Ao longo da obra, tanto o límpido e idílico Aufklärung kantiano como a sua obscura e violenta contra-face (representada nas malditas obras de Sade e Nietzsche) eram apreendidas em um só momento de crítica (sem a diluição das suas devidas diferenças) e apontadas como expressões da fragmentação do indivíduo burguês. Esse mesmo indivíduo burguês, para os autores desse “livro negro do capital” (Robert Kurz), era submetido a uma análise onde a sua racionalidade era identificada ao mito, em um movimento que para alguns autores é uma reconstituição abstrata e generalista da história ocidental e, para outros, uma problematização consciente com a própria retro-projeção histórica que o pensamento burguês comumente realiza, suprimindo a singularidade dos processos históricos. Com efeito, no âmago da própria individualidade burguesa vislumbravam a manutenção do mito por meio de sua principal figuração teórica e prática – o sujeito -, o qual apresentou no seu despertar histórico e epistemológico “o reconhecimento do poder como o princípio de todas as relações” (Dialética do Esclarecimento, capítulo “O conceito de Esclarecimento”).

Tematizando o fenômeno da indústria cultural, cuja técnica como força produtiva mascarou-se em “técnica artística”, desvelaram o germe de barbárie no interior da civilização democrática e ocidental, apontando os elementos que constituíam a identidade essencial entre o III Reich e Hollywood. Ademais, debruçaram-se sobre a inconsciência da ciência, a instrumentalização da linguagem, a identificação entre mulher e natureza, rebaixadas a objetos do domínio masculino, e, através de vários apontamentos críticos (até hoje negligenciados), questões referentes à vida cotidiana. A propósito, apesar de tais apontamentos não serem incorporados aos capítulos e excursos formadores do corpo principal da obra, também resultaram da reflexão e discussão conjunta dos autores, desenvolvidas não sem polêmicas e inquietações mútuas.

Concentrando-se, então, na crítica de uma sociedade que “permanece irracional apesar de toda racionalização” (capítulo A Indústria Cultural”) e apontando nesta uma maldição onde o “progresso irrefreável é a irrefreável regressão” (capítulo “O conceito de Esclarecimento”), Adorno e Horkheimer construíram um livro que indubitavelmente permanece atual, pela persistência dos marcos sociais que o ensejou. Porém, ao mesmo tempo preserva uma extemporaneidade, em virtude da radicalidade das suas teses e teorizações especulativas, integradas a um processo de crítica imanente. Portanto, muito ainda irromperá desse manancial teórico (meta)crítico, pois o seu necessário “núcleo temporal” converte-se em um êmulo para a superação de si mesmo.

A crítica radical do valor, do sujeito e do esclarecimento não pode se tornar uma força emancipatória enquanto não ajustar as contas com o seu passado; como a Dialética do Esclarecimento é um momento de inflexão nesse processo crítico, é imprescindível reconhecer seus momentos mais radicais; porém, na mesma medida, também aqueles onde a própria crítica foi limitada pela sua forma historicamente determinada e tragada pela força inerente à tensa relação entre o sujeito e o objeto.

Completados 60 anos, consideramos que a melhor homenagem possível à Dialética do Esclarecimento é a persistência na busca por supressão das condições que lhe tornaram possível.

FONTE: ANTIVALOR

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 Dialética do Esclarecimento

Fragmentos Filosóficos (Dialektik der Aufklärung – Philosophische Fragmente)
1947

Prefácio

O Conceito de Esclarecimento

EXCURSO I:
Ulisses ou Mito e Esclarecimento

EXCURSO II:
Juliette ou Esclarecimento e Moral

A Indústria Cultural:
O esclarecimento como mistificação das massas

Elementos do Anti-Semitismo:
Limites do esclarecimento

Notas e Esboços
FONTE: ANTIVALOR

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Sobre Sanabria

No registro consta José Roberto, mas vulgarmente conhecido por Sanabria, muito prazer. Sou professor de Filosofia, Músico e Publicitário. Continua no próximo episódio... San

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